Apenas Estranhos

Crônica narrativa encomendada por um cliente direto sobre o tema relacionamentos.

Foi pura coincidência. Estava caminhando na tranquilamente, em um dia qualquer, quando a vi no outro lado da rua. Até pensei em correr, mas foi tarde demais. Enquanto nos cumprimentávamos a encarava, meio estática, pensando nos dois anos que passamos juntas e em todas as lembranças que isso me acarretava. Meu dia não voltou ao seu curso normal. Na minha cabeça apenas retumbava a estranheza de dividir tanto com alguém e depois ver nossas vidas tomando rumos completamente opostos.

Refletindo melhor, isso sempre acontece. São tantas amizades, tantos namoros, tantos relacionamentos complexos e que acreditamos que durariam para sempre que simplesmente acabam, sem nem precisar de motivo. E é revoltante tentar se conformar que coisas assim acontecem e que alguém que amamos hoje podemos não amar amanhã. E vice e versa. Não é tão simples, mas é esse o ponto.

Relacionamentos estáveis são difíceis de ser construídos. Nós nos doamos de corpo e alma para manter uma conexão que foi estabelecida inicialmente na base da empatia, até que essa empatia se torna um sentimento forte e vasto. Tão vasto, que chegamos a imaginá-lo infinito. Como se dentro de nós existisse uma minúscula máquina de afeto que não para por nada nem ninguém. Até parar.

O que leva um relacionamento ao seu fim? É uma resposta tão difícil de encontrar – é tão relativo. Passamos meses (às vezes anos) inventando desculpas para sanar a saudade por algo que não existe mais, para fazer passar a dor que causa se tornar, e tornar o outro, alguém estranho. Acabo por concluir que seria tudo menos complicado e sofrido se conseguíssemos aceitar que nem tudo acaba bem sempre. Que quase tudo acaba. E está tudo bem, porque logo outra coisa começa. Como diz o ditado: “Não existe o doce sem o salgado”. E é assim que tem que ser.

Quando a vi, desejei que um buraco abrisse sob meus pés. Foi extremamente frustrante tratá-la como qualquer outra colega de classe que eu não vejo desde que me mudei. Odiei tratar de assuntos mundanos, perguntar como vai a família, dizer que estou feliz em ver que ela está bem. Não que eu não esteja. O que causou a infelicidade foi o baque no meu conformismo, a volta do medo de que tudo pode acabar – e mudar – a qualquer segundo. E eu não poder fazer nada a respeito, pois faz parte da vida.

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