A Guerra contra as mulheres em Game Of Thrones

Este artigo é um recap do sexto episódio da quinta temporada do seriado Game Of Thrones, tratando-se de uma discussão sobre estupro e violência contra a mulher na série da HBO.

Texto original. Tradução: Kamilla Soares

Publicado em: Game Of Thrones BR e Dani Bado.

 sansa

Nas últimas duas temporadas escrevi um recap de cada episódio. Através das mortes de personagens, adversidades de plots e muitos enredos irritantes, eu dei o meu melhor para tentar encontrar algo para fazer piada, porque aí até quando os roteiristas começassem a usar os livros como papel higiênico ao invés de guia de escrita, nós poderíamos aproveitar alguma coisa. Mas essa semana eu cansei de rir. Com o episódio de ontem a noite, os roteiristas deixaram duas coisas muito claras:

1) Chocar é mais importante que tudo.
2) Em Game Of Thrones, mulheres existem apenas para serem torturadas e estupradas.

E é por isso que estou disposta a chamar isso de “guerra contra mulheres”. Isso não é apenas uma epidemia de violência sexual na TV (o que vêm acontecendo por toda HBO) mas uma decisão calculada dos roteiristas de apresentar as personagens femininas exclusivamente como vítimas. Essa é uma recusa gritante de enxergar as mulheres apesar das situações traumáticas que podem acontecer com elas.

Sansa Stark realmente tinha um enredo em As Crônicas de Gelo e Fogo. A insistência dos roteiristas ao dizer que não havia mais o que fazer com o tempo dela em cena é muita besteira. Ao final de Festim dos Corvos, Sansa está em um ponto alto de ação e esperança: é óbvio que ela ainda está sendo observada por Mindinho, mas percebe-se como ela começa a ultrapassá-lo e, pela primeira vez nos livros, ela realmente tem algum controle sobre a própria situação. Sansa não está apenas surgindo como “sua própria mulher”, mas também como uma verdadeira jogadora no jogo dos tronos – e uma ameaça àqueles que a maltrataram no passado. Petyr a oferece “Harry, o Ninho e Winterfell” e ao final do livro, Sansa começa a ter a oportunidade de tomá-los. Mas esse simplesmente não era o enredo que interessava os roteiristas. Alguma felicidade e um vestígio de algo bom surgindo não era nem um pouco interessante. Como Benioff (roteirista) disse, “teria sido difícil manter fidelidade ao enredo de Sansa.” Talvez por que dessa forma ele teria que escrever diálogos ao invés de arrancar cabeças fora ou empurrar mais uma mulher pra uma cena de estupro? Além do mais: “Havia um sub enredo dos livros que nós amávamos, mas precisava de uma personagem que não estava mais na série.” [Nos livros, Jeyne Poole se casa e é abusada por Ramsay Bolton.] Então… O enredo de Jeyne Poole que, na minha opinião, é uma das partes mais horríveis das Crônicas de Gelo e Fogo, era algo que eles amavam e estavam planejando incluir na série há um tempo! Eles se esforçaram para dar um jeito de incluí-lo no show. Eles têm planejado isso desde a segunda temporada, contando os dias até Sophie Turner se tornar maior de idade. Estavam esperando por isso.

O enredo original de Sansa Stark não era interessante porque nada interessa a não ser que seja chocante. Isso é tudo. A série tem uma reputação de possuir cenas chocantes, começando pela decapitação de Ned Stark (que realmente possuía fins narrativos) e agora é nisso que o seriado se resume: tomadas rápidas de ação, estupro e violência sexual, além de algumas ocasionais cenas políticas em que Cersei ou Dany repetem aquele mesmo discurso da terceira temporada e encaram o horizonte. É pura preguiça. Não é como se [o último episódio] adicionasse nada à evolução das personagens de Sansa, Ramsay ou Theon, o estupro só serviu para criar comoção e fazer as pessoas falarem sobre a série.

A verdade é que estupro é a única coisa que eles sabem escrever sobre mulheres. Simplesmente era impossível perder algum tempo com Arianne Martell reivindicando seu direito ao trono ou colocando a coroa na cabeça de Myrcela. Ou em Asha Greyjoy reivindicando o governo das Ilhas de Ferro, ou nos sonhos de lobo de Arya Stark, ou em Sansa Stark conseguindo apoio no Vale ou com a Senhora Coração de Pedra. Ainda que quisessem utilizar outro plot para Sansa, por que não o de Alys Karstark ou até Alysane Mormont? Mas estupro é o que dá audiência. E tem sido assim há temporadas. Ros ganhou tempo em cena apenas para ser brutalmente assassinada por Joffrey. Meera sofreu abuso sexual mesmo não havendo o menor indício de que isso ocorreria nos livros. Uma cena de sexo consensual foi transformada em violência quando Jaime estupra Cercei diante do cadáver de seu próprio filho. Arianne Martell não poderia ser forçada em uma narrativa de violência sexual, então foi simplesmente cortada da série. Todas as formas de empoderamento feminino foram cortadas, com exceção do plot de Dany à quem, por sua vez, não é permitida nenhuma evolução de caracterização ou diálogo em duas temporadas. Na maior parte dos episódios da quarta temporada de Game of Thrones houve uma cena de estupro ou abuso e a quinta temporada segue o mesmo padrão. Em GoT, mulheres existem apenas em situações em que podem ser torturadas, estupradas e assassinadas. Elas valem apenas a dor que pode ser infringida à elas – por homens. Na noite passada, eles estupraram uma garota menor de idade. E o foco da câmera – e do trauma – foi em Theon e no quão difícil foi para ele assistir. Sansa foi abusada em sua casa – o lugar onde os únicos bons dias de sua vida foram vividos -, na cama de seus pais. E ainda assim, a dor nem pertence à vítima.

A pior parte é que os roteiristas parecem não entender muito bem o que estão fazendo. Eles parecem não enxergar mulheres genuinamente como seres humanos, as personagens femininas como que merecedoras de caraterização em um seriado, ou no mínimo, que existentes em situações variadas. Todo o ponto de As Crônicas de Gelo e Fogo – os marginalizados assumindo o poder reservado aos privilegiados – se perdeu aqui. Entre homens brancos contando piadas e estuprando meninas.

Mas eles também não parecem entender o que consentimento significa. Após Jaime ter estuprado Cersei na última temporada e todo mundo ter visto muito claramente na televisão, Alex Graves (roteirista) alegou que foi consensual, pois ela teria sido seduzida no meio do ato. E agora, Bryan Cogman está fazendo a mesma coisa. Ontem a noite, ele disse: “Isso é Game of Thrones. Não é uma garotinha tímida entrando em seu casamento com o Joffrey. É uma mulher madura fazendo uma escolha.” Como você pode se equivocar tanto sobre o conceito de consentimento? Como você pode desumanizar as mulheres tanto assim? Como você pode se convencer que mulheres são literalmente objetos, à serem movidos ao seu bel prazer? De que maneira esses homens foram qualificados para escrever esse seriado? O quão envolto no seu próprio privilégio você precisa estar, o quão inconsciente das pessoas, o quão desconectado dos outros seres humanos você precisa estar para fetichizar estupro tão frequentemente então dizer, na cara dura, que não foi estupro coisa nenhuma? (…) Então o que restou? O que resta nesse seriado para que ainda valha a pena assistir? E o que eles não estariam dispostos a distorcer e mudar no futuro, perseguindo audiência e fama? Estou assustada pelo o que aguarda Maisie (atriz que interpreta Arya Stark) quando ela completar 18 anos ou o que eles pretendem fazer com Cercei até o final dessa temporada. Não consigo pensar em nenhuma personagem feminina que não tenha enfrentado algum tipo de violência sexual, desde uma cantada em uma taverna a uma cena de estupro sem cortes. E agora que eles deram um passo a diante e fizeram uma criança ser violentada em cena, prolongando tanto os gritos pra ter certeza que a dor realmente chegaria através das telas só para depois chamar o estupro de escolha, eu preciso fazer uma pergunta: o que eles não estão dispostos a fazer para que as pessoas falem sobre Game Of Thrones?

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