Resenha: The Truth About Emanuel

Resenha curta sobre o filme The Truth About Emanue encomendada pela equipe do blog About Skins (atualmente inativo).

The Truth About Emanuel, previamente divulgado como Emanuel and The Truth About Fishes, é um drama indie protagonizado por Kaya Scodelario, escrito e dirigido por Francesca Gregorini; que teve seu lançamento oficial no festival de Sundance, em janeiro deste ano.

Emanuel (Scodelario) é uma garota solitária e misteriosa, prestes a completar 18 anos. Quanto mais a data se aproxima, mais ela se torna arredia e agressiva com o pai e a madrasta. A mãe de Emanuel morreu ao dar a luz, fato que gerou um grande trauma que afetaria toda a sua infância e juventude, uma vez que a garota acredita ter sido responsável pela morte da mãe. Ela não possui nenhum relacionamento extra-familiar, exceto seu colega de trabalho Arthur (Jimmi Simpsom – Abraham Lincon Vampire Hunter), com quem mantém um convívio amigável, porém superficial. Porém, graças a sua personalidade marcante e peculiar, acaba atraindo as atenções de um garoto que conhece no trem, Claude (Aneurin Barnard – The White Queen), com quem vive um romance adolescente.

A vida da jovem muda quando Linda, uma jovem mãe solteira, (Jessica Biel) se muda para casa ao lado. Surge em Emanuel um interesse instantâneo pela mulher, e ela se oferece para ser babá da criança. Depois de alguns dias trabalhando na casa de Linda, com quem começa a criar uma amizade, ela descobre que o bebê, na verdade, é uma boneca, e que a mulher vive um mundo fantástico. Sem muitas investigações ou perguntas, Emanuel decide apoiar a mentira de Linda e permanece trabalhando na casa. Enquanto isso, as duas desenvolvem um forte laço; laço o qual o pai de Emanuel se refere como ‘obsessão’ e, ao contrário da opinião de sua madrasta, não consiste em um interesse romântico. A jovem viu em Linda uma figura maternal e desejava arduamente que a mulher a amasse como se fosse sua filha, podendo assim, preencher o vazio deixado pela perda da mãe.

MV5BMTQ4NDExMTczNV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzA4Mzc1MDE@._V1_SX640_SY720_ Filme belíssimo e perturbador, com um roteiro extremamente bem desenvolvido, explora variadas facetas do processo de luto e as formas como o mesmo se reflete na vida de diferentes indivíduos.

A atuação de Kaya está surpreendente – mais uma vez foi capaz de provar seu grande talento. Além de Scodelario, o elenco conta com outras performances incríveis e a química contagiante de Kaya e Linda Biel. Como bônus, a trilha sonora é fantástica!

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Apenas Estranhos

Crônica narrativa encomendada por um cliente direto sobre o tema relacionamentos.

Foi pura coincidência. Estava caminhando na tranquilamente, em um dia qualquer, quando a vi no outro lado da rua. Até pensei em correr, mas foi tarde demais. Enquanto nos cumprimentávamos a encarava, meio estática, pensando nos dois anos que passamos juntas e em todas as lembranças que isso me acarretava. Meu dia não voltou ao seu curso normal. Na minha cabeça apenas retumbava a estranheza de dividir tanto com alguém e depois ver nossas vidas tomando rumos completamente opostos.

Refletindo melhor, isso sempre acontece. São tantas amizades, tantos namoros, tantos relacionamentos complexos e que acreditamos que durariam para sempre que simplesmente acabam, sem nem precisar de motivo. E é revoltante tentar se conformar que coisas assim acontecem e que alguém que amamos hoje podemos não amar amanhã. E vice e versa. Não é tão simples, mas é esse o ponto.

Relacionamentos estáveis são difíceis de ser construídos. Nós nos doamos de corpo e alma para manter uma conexão que foi estabelecida inicialmente na base da empatia, até que essa empatia se torna um sentimento forte e vasto. Tão vasto, que chegamos a imaginá-lo infinito. Como se dentro de nós existisse uma minúscula máquina de afeto que não para por nada nem ninguém. Até parar.

O que leva um relacionamento ao seu fim? É uma resposta tão difícil de encontrar – é tão relativo. Passamos meses (às vezes anos) inventando desculpas para sanar a saudade por algo que não existe mais, para fazer passar a dor que causa se tornar, e tornar o outro, alguém estranho. Acabo por concluir que seria tudo menos complicado e sofrido se conseguíssemos aceitar que nem tudo acaba bem sempre. Que quase tudo acaba. E está tudo bem, porque logo outra coisa começa. Como diz o ditado: “Não existe o doce sem o salgado”. E é assim que tem que ser.

Quando a vi, desejei que um buraco abrisse sob meus pés. Foi extremamente frustrante tratá-la como qualquer outra colega de classe que eu não vejo desde que me mudei. Odiei tratar de assuntos mundanos, perguntar como vai a família, dizer que estou feliz em ver que ela está bem. Não que eu não esteja. O que causou a infelicidade foi o baque no meu conformismo, a volta do medo de que tudo pode acabar – e mudar – a qualquer segundo. E eu não poder fazer nada a respeito, pois faz parte da vida.

+Scodelario

Matéria biográfica sobre a atriz britânica Kaya Scodelario publicado em 2013, no blog (atualmente inativo) About Skins.

effystonem

A única parte realmente válida de Skins Fire foi a oportunidade de analisar e me felicitar com a evolução de atrizes tão queridas. E como foi grande a evolução vista em Kaya! Seu amadurecimento não foi apenas físico, mas profissional. Ela deu, novamente, vida a Effy com todo um novo toque de classe e autoconfiança, cinco anos depois de sua última participação.

Em uma entrevista recente, comentando o fim de Skins após a sétima temporada, Kaya diz que a ascensão de Nicholas Hoult e Dev Patel a encorajaram, pois muitas pessoas acreditavam que o elenco de Skins não seria capaz de deixar suas personagens. Esse era um medo do qual eu mesma, até muito recentemente, compartilhava, até notar como a maioria dos atores, especialmente os que obtinham maior foco (Nicholas, Kaya, Lily, Kat, Hannah, Joe…), vieram ganhando espaço na indústria do entretenimento ao redor do mundo. A agenda de Kaya para os próximos anos está lotada, e é bastante diversificada. Entre filmes independentes, Hollywoodianos, britânicos, dramas, aventuras, como protagonista ou não, Scodelario provou à mídia e aos fãs ser muito mais que a Srta. Stonem.

Batizada como Kaya Rose Humphrey, ela nasceu em Holloway, uma área super populosa e multicultural de Londres. Com apenas um ano de idade, seus pais se divorciaram, então foi criada pela mãe, uma imigrante brasileira. Kaya é fluente em português e faz visitas frequentes ao Brasil, além de sonhar em viver aqui por um ano. Seus avós maternos vivem em Itu, no interior de São Paulo. Scodelario se mostra muito orgulhosa de suas origens brasileiras: “Minha mãe é brasileira e me orgulho muito. Eu adoraria fazer um filme brasileiro. Eu fui familiarizada com a cultura brasileira, minha mãe levou a explorá-la por conta própria. Eu cozinho comida brasileira. Eu nunca falei nenhuma palavra em inglês com a minha mãe. Significaria muito para mim [fazer um filme brasileiro], mas teria que ser o projeto certo.”

Ela era vítima de bullying quando criança por conta de sua dislexia, cabelo frisado e magreza. Encontrou na atuação uma forma de superar e lidar com isso. Apesar de a vontade de atuar já existir anteriormente, Skins foi sua primeira oportunidade de fazê-lo, e não passou de um mero acaso, ela conta: ”Eu estava voltando pra casa depois da escola. O Brasil estava jogando na Copa do Mundo, e minha mãe é brasileira, então eu estava vestindo minha camisa da Seleção, e estava toda “yeah!”, super entusiasmada, e nós estávamos andando e eu decidi parar para fumar um cigarro – porque eu tinha 14 anos e achava que era muito legal. Então o produtor, Ryan, me viu e perguntou: “Você vai para as audições?”. Eu olhei ao redor e todo mundo tinha 18, 19 anos e pensei: “Não, não, não, não…”. Eu sempre quis atuar, mas pensei que nunca daria certo pra mim, pois não tinha “contatos” nem dinheiro o suficiente. Eu pensei que estava fora do meu alcance. E ele disse: “Não, entre, entre.”. E eu pensei: “Será que ele é um pedófilo?“. Mas entrei mesmo assim! E fiz a audição e fui extremamente sortuda, e foi basicamente isso.” .

Kaya foi a única atriz a permanecer no elenco por mais de duas temporadas. Durante a primeira geração seu papel era pequeno: a irmã mais nova do Tony, a menina que nunca falava. Como nunca fez aulas de atuação, ela diz que seus primeiros dois anos em Skins foram como uma universidade, onde teve a oportunidade de apenas estar lá, muda em quase toda uma temporada, e aprender com grandes talentos. No final do último episódio da segunda temporada, o que vimos foi uma promessa: Effy estará de volta e dessa vez roubará a cena. No ano seguinte, Kaya retorna com o legado dos Stonem, recebendo o foco dos roteiristas e conquistando uma legião de fãs. Mesmo com o seu recente sucesso e sua carreira estar apenas começando, ela insiste que Effy Stonem foi o melhor papel de sua vida e que Skins fará parte dela para sempre: ”Skins, para mim, foi como uma família. Eu cresci naquele programa. Eu tinha 14 anos quando comecei, tudo que estava acontecendo na série eu estava vivendo na vida real. Eu estava tendo meu coração partido pela primeira vez, eu estava experimentando, eu estava tendo problemas em casa com minha família. Então, foi uma parte muito importante da minha vida, pois me tornou o que sou hoje. E a equipe foi praticamente a mesma por 4 anos, então ficamos muito próximos. Foi meu primeiro emprego, eu nunca havia feito aulas de teatro ou nada do tipo. Foi muito, muito difícil pra mim quando acabou e muito, muito triste. Me afetou bastante.”. É possível notar como em ambas as gerações, o elenco era bastante unido, e, em uma entrevista à revista Wonderland, Kaya revela que aprontaram bastante juntos em Bristol, inclusive ela própria ainda aos 14 anos: “Nós éramos amigos nos divertindo constantemente. Nós fizemos várias coisas em Bristol mesmo antes de sermos legalmente autorizados a fazê-las. As boates eram sensacionais. Havia essa boate que tocava drumm’n’bass e eles nunca checavam as identidades, que era o motivo de irmos lá. Era um buraco de merda, mas nós adorávamos. No fim de semana todos íamos pra lá e dançávamos até às 6 da manhã.”. E mesmo após alguns anos, não são apenas Kaya e Lily que ainda são grandes amigas. O grupo mantém contato e chegaram até mesmo a se misturar: “Acho que nunca fiz um grupo de amigos no set como em Skins. Todos tentamos nos encontrar no mínimo uma vez por mês, ambas as gerações. E as gerações meio que se esbarraram, agora que uma das garotas da terceira geração está saindo com o melhor amigo do Nick, então os grupos meio que se juntaram. Agora há apenas um grande grupo “Skins”, o que é bem legal.”.

Hoje é muito estranho pensar que no início das filmagens da primeira temporada, os produtores já haviam informado ao elenco que tentaram outras produções dramáticas e nunca eram renovados para uma segunda temporada. Por isso pensavam que a série não iria pra frente, levando todos a um extremo choque quando o sucesso começou. Kaya, pessoalmente, se sentiu bastante pressionada por fazer parte de algo tão grande. Afinal, toda uma geração de jovens britânicos foi definida após o lançamento de Skins. Ela diz: “É assustador ter essa pressão sob você. Você ouve ‘Essa é a Geração Skins’ e é muito assustador saber que você fez parte disso”. Após o estouro da primeira geração, ficou clara a importância do que estavam fazendo. “Eu penso que Skins é uma daquelas séries… Há um termo técnico pra isso, mas eu não consigo me lembrar agora, pelas quais as pessoas se sentem genuinamente ligadas, as pessoas genuinamente acreditam nas personagens. Elas são realmente intensas sobre isso. Acho que é por isso que é tão difícil se libertar de Skins, porque várias pessoas ainda estão apaixonadas pelas personagens, ligadas a elas e não conseguem deixar de lado.”. Sobre isso nós entendemos perfeitamente.

A temporada de Skins favorita de Kaya é a terceira, e seu episódio favorito é o 8º dessa temporada.

Entre o fim da segunda temporada e o início das gravações da terceira, Scodelario fez uma pequena participação no filme Moon (2009). Não só foi a primeira vez de Kaya no cinema, quanto seu primeiro trabalho fora de Skins. Mesmo seu papel sendo muito pequeno, ela diz ter sido uma experiência única da qual tem muito orgulho de ter feito parte. Em 2010, seguiu-se outra pequena participação em uma produção americana, Fúria de Titãs, que também contava com Nicholas Hoult. No mesmo ano, interpreta Tasha na distopia britânica Shank (recentemente legendada por nós), que se passa em uma Londres futura, onde a sociedade não existe mais e a cidade foi tomada pelas gangues.

Em 2011 Kaya foi “descoberta” pelo meio indie de cinema  em Morro Dos Ventos Uivantes. Na mais recente adaptação do clássico de Emily Brontë, dirigido por Andrea Arnold, ela interpreta Cathy, que protagoniza o drama épico ao lado de Heathcliff (James Howson). Scodelario não acreditava que poderia conseguir o papel, para o qual grandes atrizes de Hollywod foram cotadas, por nunca ter feito aulas de teatro e sequer ter lido o livro, além de dramas épicos estarem muito longe de sua zona de conforto. “O roteiro estava rodando por mais ou menos dois anos antes de começar a produção. Gemma Arterton estava cotada, Natalie Portman também… e de alguma maneira sempre voltava pra mim. E eu fiquei tipo: Não, eu não sou Gemma Arterton ou Natalie Portman, eu não consigo fazer isso. Eu pensava que você precisava ter ido à escola de atuação ou ser um pouco mais velha ou rica ou circunspecta. E eu não sou nenhum pouco assim. Como eu vou fazer isso? Especialmente saindo de Skins. Estava realmente nervosa.”. Mesmo perdendo a primeira audição, a diretora, Andrea Arnold, ligou para Kaya e pediu para que pudessem se encontrar pessoalmente. As duas se reuniram para conversar e se deram muito bem. Kaya conseguiu o papel, mesmo sem uma audição típica.  Ela nutre uma grande admiração por Arnold, que trouxe à história toda uma nova perspectiva e uma nova montagem. Essa, aliás, foi a primeira versão de Morro Dos Ventos Uivantes a escalar um ator negro para Heathcliff. O filme foi muito aplaudido ao redor do mundo e foi bastante premiado.

Em 2012, Scodelario foi o par romântico de Billie Piper no drama de cinco episódios da BBC True Love, também legendado por nós. O objetivo da série é mostrar vários relacionamentos e situações envolvendo amor e relacionamentos em geral. Cada episódio contém sua própria história, mas há links sutis entre eles. Kaya interpreta a adolescente Karen e aparece no terceiro e no quinto episódio. O terceiro episódio conta com maior participação de Scodelario, contando a história de Holly (Piper), uma professora que vive sozinha e está um relacionamento infeliz com um homem casado e acaba desenvolvendo sentimentos por sua aluna, Karen (Scodelario). Karen também pode ser encontrada no quinto episódio, como a filha adolescente de Adrian (David Morissey), um homem divorciado que se envolve em um relacionamento online, ao mesmo tempo em que a melhor amiga de sua filha surge com um amor platônico por ele. O relacionamento entre Holly e Karen geraram algumas polêmicas e algumas reações desagradáveis sexualizando a situação. Em uma entrevista ao Digital Spy, Kaya comenta: “É uma história realmente interessante, com meia hora de duração cada episódio entre os cinco, e são todos improvisados. São formas diferentes de amor, e esse o maior foco da série, foi por isso que quis fazê-la. Mas é muito difícil pegar duas atrizes e colocá-las juntas em um relacionamento amoroso e não torná-lo sobre sexo, torná-lo sobre suas emoções, e o porquê de estarem fazendo isso, e fazer você entender de onde elas estão vindo. E eu acho que nós fizemos isso. Acho que é muito mais sobre a conexão que elas compartilham como mulheres e o ponto em que estão na vida. E foi muito legal, ahn, eu amo amo a Billie Piper! O primeiro CD que eu comprei na vida era dela, mas não a contei isso porque pensei que pudesse assustá-la um pouco.”.

No mesmo ano, Kaya foi a melhor amiga de Dakota Fanning no drama Now Is Good (adaptação do romance Before I Die). A história se desenvolve ao redor de Tessa (Fanning), que diagnosticada com leucemia. Mesmo após quatro anos de tratamento, ela descobre que o câncer é terminal e não a é dado muito tempo de vida. Com a ajuda de sua melhor amiga Zoey (Scodelario), ela cria uma lista de coisas a fazer antes de morrer e decide cumpri-la. O filme recebeu várias críticas, porém nem todas positivas. Kaya diz ter adorado trabalhar com Dakota Fanning, uma ídola de infância: “Eu a assisti crescer, e sempre amei seus filmes, sempre a amei. Foi incrível trabalhar com uma americana, porque obviamente haveria energias diferentes. Nós nos demos super bem, ela é muito profissional e esforçada.”. Um grande desafio enfrentado por Scodelario nessa produção foi o sotaque americano: “Você pode fazer um treinamento, mas acho que o mais importante é treinar sozinha. Quando você escuta sua voz em determinado sotaque, e não soa muito como você, você acaba pensando muito a respeito. Eu venho assistindo TV e repetindo o que as pessoas dizem com sotaque americano, chamando táxis e pedindo coisas pelo telefone com sotaque americano, apenas para ficar acostumada a ouvir minha voz dessa forma. Vou dar o meu melhor para fazer justiça.”

Ainda em 2012, Scodelario estrelou em um thriller britânico, Twenty8k. A partir de um tiroteio em uma boate, com dois mortos, iniciam-se uma série de investigações que revelam uma grande conspiração envolvendo uma gangue de adolescentes. Kaya interpreta Sally, a namorada de uma das vítimas do tiroteio, e faz parte da gangue. Ela foi bastante elogiada pelo diretor desde o início das filmagens por seu comprometimento com o papel. Ela é uma grande fã do roteirista (Paul Abbot) e, após ler o roteiro, foi procurá-lo para pedir o papel. “Eu disse que realmente queria fazê-lo. Era muito diferente, era inteligente. Acho que muitas pessoas retratam as gangues londrinas de forma muito simplista, muito: Ok, alguém atira, alguém morre, alguém mostra os peitos – é isto. Isso é bem mais interessante. Há uma verdadeira história por trás, você precisa pensar. Eu tive que ler o roteiro duas vezes apenas para entender o que estava acontecendo. Isso foi o que mais me atraiu. Era inteligente, era ágil, e eu só pensei que seria muito excitante, um bom pequeno trabalho a ser feito.”.

Em julho desse ano nós lidamos com desastre de Skins Fire. Eu realmente não quero falar (mais) sobre isso, então vou abster a comentar o quão foi emocionante ver Kaya como Effy novamente. Scodelario ficou surpresa ao ser chamada para Skins 7, pois nunca pensou que Effy voltaria, o que a deixou muito nervosa. “Custaram para me convencer porque ela é tão preciosa pra mim e uma parte muito importante de quem sou. Na verdade, Skins é uma parte muito importante de quem sou, então eu estava muito focada em ter certeza de que o roteiro e as storylines estivessem corretas.”. (E sua conclusão foi de que estavam, Kaya?!)

Com a estreia adiada para 2013, no Festival de Cinema de Sundance, Emanuel And The Truth About Fishes (recentemente renomeado para The Truth About Emanuel), um drama/suspense independente, conta com Scodelario como protagonista. Ela interpretará Emanuel, uma garota “problemática” que se torna obcecada por sua nova vizinha, Linda (Jessica Biel), uma mãe solteira com estranhas semelhanças com sua falecida mãe. Emanuel se oferece para tomar conta do bebê, que, na verdade, não passa de uma boneca – pois o filho de Linda havia morrido há algum tempo. Kaya se apaixonou pelo roteiro e enviou sua audição em vídeo. Em uma viagem da diretora (Francesca Gregorini) à Inglaterra, as duas se encontraram para conversar e se deram muito bem. “Ela possui um coração muito jovem, é aberta e honesta, e eu sou bem assim também, então nós ligamos instantaneamente. Então eu fiz uma nova audição, consegui o papel e nós voamos direto para a América.”. Além do sotaque, pois é um filme americano, Kaya diz ter feito alguma pesquisa para o papel, mas não muita, pois não é de seu feitio. Ela prefere apenas imergir nas emoções da personagem e se colocar dela. “Como uma jovem mulher, foi bem fácil me identificar com Emanuel. Em várias formas, ela é apenas uma típica garota que está apenas tentando encontrar seu caminho na vida, que não tem algo por que lutar, e possui essa ânsia. Então ela encontra uma mulher que preenche esse vazio, e ela fará qualquer coisa para tomar conta disso, qualquer coisa para protegê-lo [o sentimento].”

O novo drama do Chanel 4, Southcliffe, estreou no começo de agosto e conta a história de pequena cidade inglesa devastada por uma série de tiroteios aleatórios. Dirigido por Sean Durkin, o elenco também conta com Joe Dempsie. Scodelario interpreta Anna, uma jovem garota da cidade que é uma das vítimas. Sobre a série, Kaya comenta: “Southcliffe é extremamente obscuro, é uma história extremamente depressiva e intensa, mas o tiroteio foi como ir a Disneylândia. Foi incrivelmente diferente do que estávamos filmando. Ele (Durkin) é um diretor brilhante, que sabe exatamente o que quer, e pensa completamente fora da caixa. É um prazer trabalhar com ele. Eu sou uma das vítimas da personagem de Sean Harris. O episódio que mais contém minha participação é construído a partir de flashbacks da minha morte e o que aconteceu antes disso. É mais sobre como minha família está lidando com isso e as marcas deixadas na vida dos meus pais.”.

Ainda para esse ano está prevista a estreia de Stay With Me, no qual Kaya interpreta a protagonista, uma jovem garota chamada Lamb. Lamb está completamente sozinha no mundo e aprendeu que confiar nas pessoas só fez com que se machucasse. Ela prefere continuar sozinha, e limpa casas por um salário miserável, vivendo de favor no porão de seu patrão, Senhor Dickens. Então, ela conhece Doggo (Tim Hughes), um carismático porém perigoso rapaz, por quem Lamb se sente atraída. Mesmo desconfiando que Doggo está fugindo de algo, ele passa a viver com ela no porão de Senhor Dickens. Ainda em 2013 será lançado outro drama, Invisible, baseado no romance Now You See Me. A trama gira em torno de um veterano de guerra e ex-professor, Jhonny, que forja sua morte para não envergonhar sua família, se escondendo no mundo como um andarilho. Involuntariamente, ele resgata Lola, uma adolescente que fugiu de casa tentando escapar na prostituição forçada e de Diamond Jack, seu cafetão. O resgate os liga profundamente, e leva Jhonny a um impasse: ele será capaz de se redimir ao salvar Lola de Diamond Jack ou ela apenas retornará para um mundo que a matará?

Em Maio, Scodelario começou as filmagens de The Maze Runner, o primeiro filme da trilogia adaptada por Wes Ball, com previsões para estrear em fevereiro de 2014. O enredo gira em torno de Thomas, um garoto que, ao acordar em um elevador, não se lembra de nada além de seu próprio nome. Quando a caixa metálica chega a seu destino, Thomas descobre a Clareira: um amplo espaço aberto, cercado por muros altíssimos. Lá estão vários outros garotos, e nenhum deles sabe o motivo por estarem presos ali. A Clareira é cercada por imenso Labirinto, lotado de criaturas malignas que atacam a noite. A cada 30 dias, o elevador traz para Clareira um novo garoto. Mas, um dia, chega uma garota, Teresa Agnes (Kaya), que mudará radicalmente a rotina do lugar. A trilogia já possui uma fanbase gigantesca, e, provavelmente, será o trabalho que lançará de vez o nome de Scodelario na Indústria do Cinema. O elenco parece estar tendo uma boa aceitação pelos fãs, e Kaya está muito animada com o projeto: “É o meu primeiro trabalho em estúdio de verdade, e é realmente algo legal. Não é aquela coisa de triângulo amoroso típico de trilogias, é bem frenético, assustador e cheio de ação. É o primeiro daqueles filmes destinados para o público masculino, o que eu acho bem legal, vários garotos vão se relacionar com isso. E é o primeiro trabalho do diretor, ele só fez um curta antes e agora foi encarregado dessa trilogia gigantesca, e ele basicamente vai fazer o que quer que ele queira. Como ele anunciou que eu estava no elenco pelo Twitter, eu adorei isso! Ele vai fazer tudo do jeito dele. Eu sou a única mulher no elenco, e ela meio que aparece mais pro meio do filme, e ela catalisa todas as coisas ruins e todos os segredos sendo expostos e tudo caindo aos pedaços; o que é ótimo! Eu faço muitas corridas e dou muitos saltos e essas coisas que eu nunca havia feito antes. Eu nunca havia feito nada físico ou de ação, então eu estou me esforçando muito, parando de comer batata frita e ficando saudável.”. Quando questionada sobre se está ou não preparada para o sucesso que poderá vir após o lançamento de The Maze Runner, Kaya diz que prefere não criar expectativas, está apenas feliz por ter a oportunidade de trabalhar e construir sua carreira: “Qualquer coisa que sair disso eu vou lidar quando chegar a hora.”.

Em maio foi anunciado que Scodelario estará no thriller Tiger House, que já está em pré-produção e está previsto para estrear em 2014. Também em 2014 estreará o curta patrocinado pela Salvatore Ferragamo, sobre o qual pouco se sabe. O curta será exibido apenas em lojas da marca e se passa em vários locais do mundo.

Entre 2009 e 2013 Kaya apareceu em quatro videoclipes da banda Plan-B, um da banda The Ruskins e recentemente em Candy, do Robbie Williams.

Ano passado surgiram rumores de que Kaya protagonizaria a adaptação da série de literatura fantástica Fallen, mas não foram confirmados. Pelo contrário, os rumores foram silenciados após a associação de Kaya à The Maze Runner e, aparentemente, os produtores (e os fãs) já iniciaram uma busca por outra protagonista. Sugiram também rumores de que Kaya protagonizaria uma nova franquia de Tomb Raider. Ela os nega: “Eu não sei de onde diabos isso veio. Eu não consigo imaginar em um papel já interpretado por Angelina Jolie, você conseguiria? Minha tia me ligou outro dia e falou: Kaya, eu vi no Google que… Eu, sinceramente, não sabia de nada disso.”. Completa: “Eu ficaria tentada? Um pouco. Me dê uns anos pra entrar em forma, então talvez possa tentar.”.

Mesmo começando a fazer sucesso com grandes filmes, Kaya permanece assinando com dramas para TV e essa decisão é constantemente questionada. Ela diz que acredita na televisão, e não vai parar de fazer seriados. “Eu vim da TV, eu nunca virarei minhas costas para ela. (…) Eu definitivamente quero voltar para TV Britânica, porque nós temos várias coisas incríveis nela, mesmo havendo muita merda, reality shows mal feitos, mas eu acredito em manter a TV forte, em manter o drama forte, e fazer parecer cinematográfico, com um bom orçamento e bons roteiristas já fizeram. Não precisa ser apenas feita de coisas mundanas. Eu não conseguiria me mudar para LA e viver apenas em um lado da moeda. Eu sempre terei que voltar pra cá.”.

Ao escolher um projeto, o que Kaya mais leva em consideração é o roteiro, mas trabalhar com um bom diretor também é muito importante e é muito bom se dar bem com ele/a. (“Eu nunca trabalhei com um diretor com o qual não me desse bem”). Quando questionada sobre um “diretor dos sonhos”, ela responde: “Eu poderia responder os estereótipos Quentin Tarantinos do mundo, mas eu amo a ideia de encontrar um diretor completamente desconhecido. Apenas começando, fazendo do seu próprio jeito. Mas eu amaria fazer um filme do Tarantino!”. Kaya sonha em trabalhar ao lado de Tom Hardy e Jhonny Deep, e gostaria de fazer parte da adaptação de algum livro da escritora britânica Martina Cole, se algum dia acontecer. Em uma entrevista para um jornal britânico, Kaya fala sobre o papel dos seus sonhos: “Eu quero interpretar Keith Richards. Cate Blanchett interpretou Bob Dylan em I’m Not There, então eu poderia fazer Keith Richards. Ele tinha uma aparência bem feminina quando era mais novo.”.

O sucesso de Kaya em Hollywood está rendendo convites para festas da lista A das redondezas, incluindo o aniversário de Justin Timberlake. “Eu fui na casa dele comemorar seu aniversário. Foi incrível, mas um daqueles momentos nos quais eu precisava ligar para alguém e dizer: Aaargh! Adivinha onde eu estou agora? Sim, eu liguei pra todo mundo. Eu liguei pra minha mãe.”

Scodelario e Jack O’Connel namoraram entre 2008 e 2009 e sempre foram abertos sobre isso para a mídia. O relacionamento não deu certo, mas eles garantem que continuam bons amigos. Desde meados de 2009 Kaya está com o ator Elliott Tittensor, com quem, atualmente, vive em Manchester.

Seus músicos favoritos são The Rolling Stones, The Who e Bob Marley. Entre os filmes que mais gosta estão Boogie Night, Titanic e Crossroads. Sua série de TV favorita é EastEnders, uma novela da BBC1 que dura desde 1985. Kaya é muito fã do Arnold Schwarzenegger, inclusive dando o nome de Arnie para seu novo cachorro.  Ela curte futebol e torce para o Arsenal. Sua peça favorita de roupa é uma jaqueta de couro que pertencia a sua mãe. Ela é apaixonada por Twix e sua cidade favorita no mundo é Londres, e o melhor lugar do mundo é a casa de sua mãe. O relacionamento de Kaya com sua mãe parece ser lotado de companheirismo, confiança, amor, e admiração. Ela, inclusive, a considera sua maior modelo.

Scodelario está envolvida com diversas causas sociais, como o Dia Nacional do Desenho, um projeto iniciado em 2004 que coleta fundos para melhor o futuro de pessoas que sofrem com Epilepsia. Ela também apoia o Jantar Escolar Realmente Bom, que consiste em coletar fundos para melhor a alimentação de crianças em países em desenvolvimento, a partir da campanha “seus 10 pencils (semelhante a centavos) fazem a diferença”. Kaya está associada ao Trekstock, uma campanha que pretende ajudar jovens com câncer, através de música, moda e arte em geral, além de coletarem dinheiro para colaborar com pesquisas no Cancer Research UK. Além dessas, Kaya está envolvida com o projeto Once Upon A Smile, que trabalha com famílias com crianças doentes. Sobre a causa, ela diz: “Por ter sido convidada a me envolver com um número de projetos sociais, eu tomei um tempo para escolher o projeto certo pra mim. Eu sou amiga pessoal dos fundadores de Once Upon A Smile. Não apenas por isso, suas propostas e objetivos eu não pude recusar. Eu estou extremamente orgulhosa do que foi atingido até agora e de como nós, como uma associação de caridade, seremos capazes de oferecer a tantas famílias uma fonte de suporte, quaisquer sejam suas necessidades. Eu estou orgulhosa, honrada e feliz por fazer parte de Once Upon A Smile e estou ansiosa para progredirmos juntos.”.

Kaya foi nomeada aos seguintes prêmios: Monte-Carlo TV Festival 2008 e 2010 (Atriz destaque em série dramática – Skins), TV Quick Awards 2009 e 2010 (Melhor atriz – Skins), Virgin Media Movie Awards 2012 (Next Big Thing), Glamour Women Of The Year Award 2012 (Pandora Breaktrough –  Morro Dos Ventos Uivantes), Virgin Media Movie Awards 2013 (Melhor atriz –  True Love) e foi vencedora do Ashland Independent Film Festival 2013 (Melhor grupo de atuação – Emmanuel And The Truth About Fishes).

Esse ano foi classificada como uma das melhores atrizes na faixa dos 25 anos pela revista Complex, ao lado de Evan Rachel Wood e Anna Kendrick. Ela definitivamente merece!

A Guerra contra as mulheres em Game Of Thrones

Este artigo é um recap do sexto episódio da quinta temporada do seriado Game Of Thrones, tratando-se de uma discussão sobre estupro e violência contra a mulher na série da HBO.

Texto original. Tradução: Kamilla Soares

Publicado em: Game Of Thrones BR e Dani Bado.

 sansa

Nas últimas duas temporadas escrevi um recap de cada episódio. Através das mortes de personagens, adversidades de plots e muitos enredos irritantes, eu dei o meu melhor para tentar encontrar algo para fazer piada, porque aí até quando os roteiristas começassem a usar os livros como papel higiênico ao invés de guia de escrita, nós poderíamos aproveitar alguma coisa. Mas essa semana eu cansei de rir. Com o episódio de ontem a noite, os roteiristas deixaram duas coisas muito claras:

1) Chocar é mais importante que tudo.
2) Em Game Of Thrones, mulheres existem apenas para serem torturadas e estupradas.

E é por isso que estou disposta a chamar isso de “guerra contra mulheres”. Isso não é apenas uma epidemia de violência sexual na TV (o que vêm acontecendo por toda HBO) mas uma decisão calculada dos roteiristas de apresentar as personagens femininas exclusivamente como vítimas. Essa é uma recusa gritante de enxergar as mulheres apesar das situações traumáticas que podem acontecer com elas.

Sansa Stark realmente tinha um enredo em As Crônicas de Gelo e Fogo. A insistência dos roteiristas ao dizer que não havia mais o que fazer com o tempo dela em cena é muita besteira. Ao final de Festim dos Corvos, Sansa está em um ponto alto de ação e esperança: é óbvio que ela ainda está sendo observada por Mindinho, mas percebe-se como ela começa a ultrapassá-lo e, pela primeira vez nos livros, ela realmente tem algum controle sobre a própria situação. Sansa não está apenas surgindo como “sua própria mulher”, mas também como uma verdadeira jogadora no jogo dos tronos – e uma ameaça àqueles que a maltrataram no passado. Petyr a oferece “Harry, o Ninho e Winterfell” e ao final do livro, Sansa começa a ter a oportunidade de tomá-los. Mas esse simplesmente não era o enredo que interessava os roteiristas. Alguma felicidade e um vestígio de algo bom surgindo não era nem um pouco interessante. Como Benioff (roteirista) disse, “teria sido difícil manter fidelidade ao enredo de Sansa.” Talvez por que dessa forma ele teria que escrever diálogos ao invés de arrancar cabeças fora ou empurrar mais uma mulher pra uma cena de estupro? Além do mais: “Havia um sub enredo dos livros que nós amávamos, mas precisava de uma personagem que não estava mais na série.” [Nos livros, Jeyne Poole se casa e é abusada por Ramsay Bolton.] Então… O enredo de Jeyne Poole que, na minha opinião, é uma das partes mais horríveis das Crônicas de Gelo e Fogo, era algo que eles amavam e estavam planejando incluir na série há um tempo! Eles se esforçaram para dar um jeito de incluí-lo no show. Eles têm planejado isso desde a segunda temporada, contando os dias até Sophie Turner se tornar maior de idade. Estavam esperando por isso.

O enredo original de Sansa Stark não era interessante porque nada interessa a não ser que seja chocante. Isso é tudo. A série tem uma reputação de possuir cenas chocantes, começando pela decapitação de Ned Stark (que realmente possuía fins narrativos) e agora é nisso que o seriado se resume: tomadas rápidas de ação, estupro e violência sexual, além de algumas ocasionais cenas políticas em que Cersei ou Dany repetem aquele mesmo discurso da terceira temporada e encaram o horizonte. É pura preguiça. Não é como se [o último episódio] adicionasse nada à evolução das personagens de Sansa, Ramsay ou Theon, o estupro só serviu para criar comoção e fazer as pessoas falarem sobre a série.

A verdade é que estupro é a única coisa que eles sabem escrever sobre mulheres. Simplesmente era impossível perder algum tempo com Arianne Martell reivindicando seu direito ao trono ou colocando a coroa na cabeça de Myrcela. Ou em Asha Greyjoy reivindicando o governo das Ilhas de Ferro, ou nos sonhos de lobo de Arya Stark, ou em Sansa Stark conseguindo apoio no Vale ou com a Senhora Coração de Pedra. Ainda que quisessem utilizar outro plot para Sansa, por que não o de Alys Karstark ou até Alysane Mormont? Mas estupro é o que dá audiência. E tem sido assim há temporadas. Ros ganhou tempo em cena apenas para ser brutalmente assassinada por Joffrey. Meera sofreu abuso sexual mesmo não havendo o menor indício de que isso ocorreria nos livros. Uma cena de sexo consensual foi transformada em violência quando Jaime estupra Cercei diante do cadáver de seu próprio filho. Arianne Martell não poderia ser forçada em uma narrativa de violência sexual, então foi simplesmente cortada da série. Todas as formas de empoderamento feminino foram cortadas, com exceção do plot de Dany à quem, por sua vez, não é permitida nenhuma evolução de caracterização ou diálogo em duas temporadas. Na maior parte dos episódios da quarta temporada de Game of Thrones houve uma cena de estupro ou abuso e a quinta temporada segue o mesmo padrão. Em GoT, mulheres existem apenas em situações em que podem ser torturadas, estupradas e assassinadas. Elas valem apenas a dor que pode ser infringida à elas – por homens. Na noite passada, eles estupraram uma garota menor de idade. E o foco da câmera – e do trauma – foi em Theon e no quão difícil foi para ele assistir. Sansa foi abusada em sua casa – o lugar onde os únicos bons dias de sua vida foram vividos -, na cama de seus pais. E ainda assim, a dor nem pertence à vítima.

A pior parte é que os roteiristas parecem não entender muito bem o que estão fazendo. Eles parecem não enxergar mulheres genuinamente como seres humanos, as personagens femininas como que merecedoras de caraterização em um seriado, ou no mínimo, que existentes em situações variadas. Todo o ponto de As Crônicas de Gelo e Fogo – os marginalizados assumindo o poder reservado aos privilegiados – se perdeu aqui. Entre homens brancos contando piadas e estuprando meninas.

Mas eles também não parecem entender o que consentimento significa. Após Jaime ter estuprado Cersei na última temporada e todo mundo ter visto muito claramente na televisão, Alex Graves (roteirista) alegou que foi consensual, pois ela teria sido seduzida no meio do ato. E agora, Bryan Cogman está fazendo a mesma coisa. Ontem a noite, ele disse: “Isso é Game of Thrones. Não é uma garotinha tímida entrando em seu casamento com o Joffrey. É uma mulher madura fazendo uma escolha.” Como você pode se equivocar tanto sobre o conceito de consentimento? Como você pode desumanizar as mulheres tanto assim? Como você pode se convencer que mulheres são literalmente objetos, à serem movidos ao seu bel prazer? De que maneira esses homens foram qualificados para escrever esse seriado? O quão envolto no seu próprio privilégio você precisa estar, o quão inconsciente das pessoas, o quão desconectado dos outros seres humanos você precisa estar para fetichizar estupro tão frequentemente então dizer, na cara dura, que não foi estupro coisa nenhuma? (…) Então o que restou? O que resta nesse seriado para que ainda valha a pena assistir? E o que eles não estariam dispostos a distorcer e mudar no futuro, perseguindo audiência e fama? Estou assustada pelo o que aguarda Maisie (atriz que interpreta Arya Stark) quando ela completar 18 anos ou o que eles pretendem fazer com Cercei até o final dessa temporada. Não consigo pensar em nenhuma personagem feminina que não tenha enfrentado algum tipo de violência sexual, desde uma cantada em uma taverna a uma cena de estupro sem cortes. E agora que eles deram um passo a diante e fizeram uma criança ser violentada em cena, prolongando tanto os gritos pra ter certeza que a dor realmente chegaria através das telas só para depois chamar o estupro de escolha, eu preciso fazer uma pergunta: o que eles não estão dispostos a fazer para que as pessoas falem sobre Game Of Thrones?